Tendências de Consumo de Moda Pós-Pandemia - Por Rita Prado

Atualizado: Jun 10

A indústria da Moda vive de uma renovação constante dos gostos, que vem desde os lançamentos das tendências nas semanas de Moda até os estilos resgatados das ruas. Essa veloz engrenagem é alimentada pela certeza da temporalidade dos desejos: um dia aquele produto de moda é “necessário”, meses depois ele já não nos serve mais.

A moda não está associada apenas ao hábito diário de cobrir o corpo ou o modo de fazer isso, ela implica em conceitos mais amplos como: comportamento, estilo de vida, fatores sociais, políticos e culturais. Através da Moda é possível compreender e estudar a historicidade do homem, seus valores, usos, hábitos e costumes.


Quando escolhemos uma roupa para vestir, temos a intenção de comunicar algo, de expressar um posicionamento político, ideológico ou até religioso, refletindo por meio da peça (matéria-prima, processo tecnológico ou modelo) um determinado tempo histórico. Sendo assim, quando algo modifica o nosso comportamento, o reflexo pode ser visto em nossas roupas e na forma como nos relacionamos com elas.


Muita coisa aconteceu no mundo logo no primeiro semestre de 2020. A pandemia do novo corona vírus chegou como um catalizador de mudanças que já vinham sendo desenhadas pela Moda. Pesquisas sobre o impacto da indústria da moda no meio ambiente, principalmente após o advento das chamadas “fast fashion”, já sinalizavam para um imperativo de mudança no cenário internacional.


Com as alterações trazidas pelo isolamento social em várias partes do mundo, o mercado de Moda também teve que se adaptar, novos hábitos se multiplicaram, gerando algumas alterações positivas no comportamento de consumo. Entre essas várias mudanças comportamentais, que implicam em tendências para o consumo de moda, observemos quatro que já sinalizam o futuro de uma moda pós pandemia. São elas:


1. Consumo mais consciente, uma mudança de visão.


A pandemia do corona vírus trouxe consequências irreversíveis ao mercado da moda, alterando permanentemente o conceito de consumo. A intenção de que a aquisição de produtos seja orientada por valores, ou seja, o que é importante e faz sentido para cada pessoa, aos poucos vai deixando de ser um ideal sustentável para ser realidade.


Marcas e designers são indispensáveis para a instituição de uma nova forma de pensar, agir e consumir moda. Os primeiros anos do século XXI ensaiaram um chamado para “a nova revolução industrial” que substitui as premissas daquela revolução solidificada ao longo do século XX. Uma revolução que substitui o volume pela qualidade, o tempo humano pelo tempo ecológico, a especialização do fazer pela valorização do ser, o competitivo pelo colaborativismo etc. Nesse sentido, a transparência, a comunicação e a identificação dos consumidores com as marcas é fundamental.


O “novo” consumidor deseja entender quais são os valores envolvidos em todo o processo de criação e desenvolvimento daquele produto. Ele deseja fazer parte, dialogar com as marcas e, o mais importante, ele deseja estar inserido. Esse consumidor deseja se enxergar parte do processo, estar presente nos produtos, se reconhecer.


Para isso, a comunicação das marcas cada vez mais trabalha ideias como engajamento em causas sociais, posicionamento político, noção de comunidade, transparência nos processos produtivos etc. Palavras como propósito e valor, serão indispensáveis nos próximos meses. Repensar estratégias e criar ações significativas por sua relevância serão muito importantes neste período de crise provocada pelo isolamento social.

2. Digitalização dos negócios.


Em questão de meses, muitas empresas se viram obrigadas a adaptar seus negócios para a venda online. As marcas passaram realizar todo o processo de venda dos produtos por meios digitais, algumas ainda tiveram a necessidade de educar os clientes mais conservadores a se adaptarem às novas modalidades de compra e entrega dos produtos.


Os novos tempos trouxeram também a preocupação de trabalhar melhor a comunicação e presença das marcas nas redes sociais, além de uma produção diária de conteúdo empático que aproximasse o cliente da sensação de estar no ambiente de loja física. Muitas marcas refletiram sobre a sua relação com o consumidor e sobre a necessidade de entender suas expectativas daqui para frente. A cultura de compra gerada nesse período não permite um retrocesso, o cliente se adaptou a ter contato com suas marcas preferidas à distância de um clique.


3. Valorização do Nacional e Local.


O momento da pandemia também gerou uma desintegração nas cadeias produtivas. As importações de produtos internacionais ficaram mais difíceis, seja por questões de logística, seja pela alta do dólar. Muitas empresas tiveram que passar a buscar fornecedores na própria indústria nacional. O consumidor, por sua vez, passou a adquirir produtos produzidos nacionalmente, inclusive consumindo marcas que antes não conhecia.


O movimento “#apoieaspequenasempresas” ou “compre do pequeno”, que começou durante o período do isolamento, gerou uma aproximação do consumidor aos produtos locais através de sua geolocalização. O fenômeno da “glocalização” está sendo observado há alguns anos, mas nunca havia ficado tão evidente! As marcas passaram a pensar no global, mas agir no local, onde a demanda pelos seus produtos foi maior. E isso vai fazer com que grandes marcas, sem identificação com o esse “novo” consumidor, desapareçam. Algumas terão que trabalhar com pequenas e médias empresas com as quais estarão conectadas em todo o mundo. Iniciativas locais com qualidade e serviços globais, mexerão nas estruturas do mercado, inclusive descentralizando o poder que as grandes multinacionais têm.


Por fim, vale observar que muitos profissionais da área ficaram desempregados neste período e, por isso começaram, ainda que informalmente, pequenos negócios de moda.


4. Mudança no Calendário da Moda.


Durante os primeiros meses do ano, a produção de novas roupas foi inviabilizada devido às restrições de isolamento social, que impossibilitou a aglomeração de funcionários produzindo peças. Além disso, os consumidores também estiveram comprando menos, muitos perceberam que a roupa não é um item essencial. Esses foram alguns dos fatores que fizeram com que as grandes indústrias repensassem o número de coleções para este ano. Tanto as marcas maiores, cuja divulgação acontece principalmente nos grandes desfiles, quanto as menores, que expõem seus produtos em eventos locais ou vitrines, já estão precisando adaptar o número e o tamanho de suas coleções.


Algumas das marcas mais importantes do mundo da Moda já se pronunciaram acerca da mudança nos calendários individuais de lançamento de seus produtos, anunciando que adequarão suas coleções ao ritmo e valores de suas marcas, abrindo mão do calendário oficial.

A consequência disso é que, na prática, muitas empresas se aproximarão de uma tendência de consumo da moda chamada “slow fashion” – o antônimo da “fast fashion”, cuja principal premissa é não compactuar com a sazonalidade das peças e a produção desenfreada. À longo prazo, as mudanças no calendário irão impactar desde as lojas de departamento aos pequenos ateliês porque alteram a lógica de um sistema consolidado de lançamento de tendências.


Em suma, a moda é uma forma de expressão coletiva que se altera conforme os acontecimentos históricos e culturais, através de uma linguagem que se materializa no vestuário. Os empreendedores da Moda devem estar atentos às mudanças no comportamento do consumidor pós pandemia, afim de compreender melhor os anseios deste mercado. A realidade dos novos tempos, exige menos desperdício e mais durabilidade – e o momento não poderia ser mais oportuno para promover mudanças que fortaleçam este que é um dos setores da economia mais prejudicados pela pandemia.


Rita Prado é designer de moda, professora universitária, mestre em design e consultora em planejamento de coleções. @ritaprado.com.br

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